De menina serelepe me transformei em mulher de gênio forte, reações intempestivas... Meiguice, não conheço. Não sei ser uma pessoa meiga... A vida me fez dura... Quase me transformou em pedra... Nada tenho de neutralidade... Nem sei o que é isso e quando vislumbro essa característica em alguém sinto arrepios de pavor...
Vivo uma eterna dicotomia: tenho o sangue quente, ao mesmo tempo em que consigo ser gélida como as rochas marcianas. Já disse que odeio meio termo... Ame ou deixe, é o meu lema. Mas não me cozinhe em banho maria, pois meu caldeirão tem sempre poções em estado máximo de ebulição... Ou apago o fogo. E a tocha que carregava num claro sinal de manutenção de sentimento se extingue.
Tenho a alma transparente, mas isso não significa que todos me conheçam de verdade... É difícil me (re)conhecer no todo. Tenho camadas profundas e normalmente só mostro as mais superficiais. Acho que as mais profundas nem eu mesma conheço. Estão reservadas para quem não promete, mas cumpre, age... E não conheço pessoas assim... A maioria promete, tenta, mas não consegue cumprir integralmente tudo a que se propôs. Talvez nem eu mesma...
Eu deveria andar com uma coleira onde estivesse escrito: Cuidado, eu mordo! Mordo sim... Sempre que preciso me defender ou me preservar... Mas acaricio também... Em muito maior proporção.
Sou uma pessoa de hojes... Embora ainda sofra muito com todos os meus ontens... Aqueles que sei que não voltarão a ser hoje por pura impossibilidade física de morte... sejam mortes físicas ou simbólicas... Talvez meu maior defeito seja querer o mundo, e querer já! Nada pra depois. Tudo o que quero preciso com uma necessidade quase que vital. Morro se não tiver. Mas renasço sempre, tendo ou não. É a vantagem de ter a alma fênix.
Muitas vezes tenho vontade de reabrir os velhos processos, já arquivados por decadência e/ou prescrição. Pois sei que sempre há um fato novo capaz de reabri-los. Mas, tal a caixa de Pandora, nunca sabemos o que sairá de lá se esta for aberta... Se sairão apenas todos os males. Ou se terei a sorte de sobrar ao menos a esperança, trancafiada de volta a várias chaves, para que nunca se perca de mim... Para que eu continue exercitando-a. Que em muitos dias foge de mim...
Relembrar dói... Seja um passado recente ou um passado já mais que perfeito, pois que exauriu todos os seus efeitos... Mas ao vivenciar o sagrado exercício da penitência, do rever erros e acertos, constato: Fui idiota, quero voltar. Mas como voltar ao que já não há mais volta? Como voltar ao que já não existe, senão em meus devaneios, lembranças e desejos?
Meus atos impensados e desmedidos sempre estragam tudo. O vocábulo "equilibrada" não pertence a mim. E acho que nunca pertencerá. A cada dia tenho mais certeza disso. A vida não me permite incorporar esta qualidade diariamente. O equilíbrio dá trabalho para ser mantido... E acho que já me acostumei a viver na corda bamba.
Mas em momentos de fraqueza volto a querer trilhar o que sei já ser fracasso. Teimosa que sou acho que posso mudar o mundo, as pessoas, a mim mesma... Nestas horas só desejo que sejamos como bandidos sem munição: armas no chão. Luta corporal. Que termina em beijos, afagos e em uma explosão de desejos que sei que ainda existem. Mas que precisam ser sufocados em nome de... de quê mesmo??? O que seria capaz de obrigar alguém a sufocar seus desejos, seu amor? Covardia, é a única palavra que me vem à mente. Nada mais seria capaz de tal loucura. Os covardes são loucos, os loucos não são covardes.
Sou louca. Não sou covarde. Não sufoco nada em mim. Embora tenha sido obrigada a sufocar algumas coisas pela covardia de outros.
E, pior que tudo isso jogado ai em cima, é que ele não diz nada... Abro minha alma, exponho minhas feridas, minhas chagas que jorram sangue, e ele não diz nada. Fica ali, feito padre, ouvindo minhas confissões dia após dia e sem saber ainda quantas aves marias, quantos credos e quantos pai nossos quer que eu reze, ajoelhada no milho... Sem saber como me penitenciar por tantos pecados... Sem saber que meu único pecado verdadeiro foi amá-lo demais...
Deito então no chão frio e espero as pedras... Joguem-me pedras por amar demais...
E, quem não tiver este pecado, pode atirar a primera...
Vamos... estou esperando...
Quem sabe assim eu me cure deste pecado e possa ter uma nova chance, tal qual Madalena?

Nenhum comentário:
Postar um comentário